A
Fé da Ciência
No
texto "Neolíticos e Modernos" de José A. de Lacerda Júnior da Universidade
Federal Fluminense, é abordado um tema onde trata da nossa conduta em virtude
do acúmulo de conhecimento estabelecido pelo caráter científico da Modernidade.
Todavia, nos é comum que o cientificismo sempre fora o instrumento mais
utilizado para se compreender o mundo. Mas não seria, pois, em função disso que
estamos caminhando rumo a uma desestruturação social? Um caos? Vejamos,
portanto, em linhas gerais, os porquês dessa questão.
No livro
"A Dialética do Esclarecimento"
(1947), Adorno (1903-1969) e Horkeheimer (1895-1973) também já criticavam a Modernidade
por depositar todos os créditos na Ciência como detentora do saber universal. Para
estes filósofos a pretensão científica não se deu no início da Modernidade
juntamente com René Descartes (1596-1650) e nem no Iluminismo, mas já é
possível encontrarmos o germe dessa aspiração nos poemas de Homero no séc. XIII
a.C.
Os
filósofos de Frankfurt expõem o que Homero narra no Canto XII da Odisséia, como
Ulisses se utiliza da razão (Ciência) para não cair nos encantos das sereias
que desorientavam os navegantes. Após ordenar que fosse colocada cera no ouvido
dos tripulantes, Ulisses pede que alguém o amarre, sem tapar os seus no intuito
de conhecer a música. Amarrado, Ulisses se encanta com a melodia, mas não é
tragado pelo mar. Nesse sentido, parece-nos que Ulisses, embora tenha usado sua
razão (Ciência), queria conhecer o "mistério" das sereias.
Não
negamos que a sociedade do conhecimento é hoje um reflexo da cientificidade. E
a partir disso, percebemos que o método científico utilizado na intenção de
compreender o mundo sempre caminhou por estradas nebulosas ocasionando cada vez
mais distanciamento entre o homem e o seu objetivo. No entanto, que objetivo é
esse? O que é que estamos buscando afinal de contas nessa jornada científica?
A
sociedade atual se denomina detentora da Ciência e busca compreender os mistérios:
a verdade. Contudo, o problema está no fato de mesmo não sabendo o que é a
"verdade", tal qual Ulisses, estamos em busca dela numa expedição que
já conta com mais de dois mil anos. Não estará essa jornada científica causando
a subtração dos recursos naturais do planeta em função da parafernália que criamos
para tentar compreender dificuldades criadas por nós mesmos? Porque se extrair
tanto da Terra em busca de uma verdade transcendente? Não é "fé" a Ciência
acreditar que um dia alcançará o conhecimento absoluto e o controle total?
Por
fim, será que deixamos de ser mitológicos mesmo acreditando que "cientificamente"
encontraremos a resposta para todas as perguntas um dia? Concordamos com Immanuel
Kant (1724-1804) que durante o Iluminismo afirmou: "não temos total
capacidade de conhecimento, pois somos limitados." É também o que pensa Lacerda
quando afirma que nos tornando presunçosos ao desacreditar totalmente nos mitos,
isto é, a forma de ver o mundo dos antigos.